Plano de Parto: o sonho, a realidade e tudo o resto

plano de parto

Apercebo-me agora do impacto que tem a nossa história de parto. Já passou quase um ano e ainda não escrevi o post que planeava escrever sobre Planos de Parto e trabalho de parto. Penso que tem sido mais confortável para mim não voltar àquele dia e pensar sobre isso outra vez. Sentia finalmente que já tinha lidado com as emoções daquele dia e voltar a pensar em escrever sobre isso era mais do que aquilo que queria ou me apetecia fazer. Não me interpretem mal. Não estou traumatizada, nem me arrependo de nada. Até porque acima de tudo o mais importante foi conseguido: uma mãe e uma bebé saudáveis. Contudo, estar em trabalho de parto, ter um bebé e tornar-se mãe é uma das coisas mais poderosas que acontecem na vida de uma mulher. E é natural que se tenham expectativas sobre o que vai acontecer. Mas as memórias que ficam são da realidade do que aconteceu. Entre o sonho e a realidade estão os sentimentos de frustração, tristeza e luto. Estão os pensamentos, dúvidas e sentimentos de incompetência e a constante interrogação “e se…?”. Entre o sonho e a realidade está a verdade difícil de aceitar: não podemos controlar tudo na nossa vida; não podemos desde o início fazer tudo aquilo que queríamos e gostávamos por nós nem pelos nossos filhos.

Como já mencionei nos últimos posts, durante a minha gravidez pensei muito sobre o que seria o trabalho de parto ideal para mim. Como muita gente sábia me avisou: deves ter um plano com preferências e estares preparada para mudá-lo. E foi isso que fiz. Sabia muito bem que tudo o que tinha planeado podia não acontecer da maneira que eu desejava. Mas até se viver a situação, não se faz a menor ideia do quão difícil isso é.
Preparámo-nos para o parto com uma aula de Hipnoparto no Hosptial Newton-Wellesley. O meu marido gostou da parte informativa e de perceber os factos todos sobre trabalho de parto e eu gostei de ter uma perspectiva que me fez sentir mais confiante na minha decisão de escolher um parto natural. Para além disso, ambos deliciávamo-nos com as curtas sestas durante os exercícios de relaxamento, que tão bem sabiam depois de um longo dia de trabalho. Mas confesso, desde o início, achei que a perspectiva desta teoria de NÃO sentir dor era demasiado exagerada ou pelo menos não atingível para a maioria das pessoas… mas quem sabe eu não seria uma dessas pessoas abençoadas? Toda a gente dizia que para o Hipnoparto ser eficaz é preciso praticar TODOS os dias. E eu não fui assídua com os meus treinos. Pratiquei os exercícios de relaxamento aqui e ali, ouvia as afirmações positivas no caminho para o trabalho e li o livro duma ponta à outra. Mas era um exercício de relaxamento diário? Nem por isso.

Contratámos uma doula excelente. E isto foi umas das melhores coisas que podíamos ter feito. Leia mais sobre isso neste post antigo: Sobre a decisão de contratar uma doula.

Então, perguntam vocês, qual era o nosso plano de parto afinal? Queríamos uma parto natural com o menor número de intervenções médicas possíveis. Não nos seria oferecido medicação para as dores, mas nós pediríamos se quiséssemos. Não estaria ligada ao monitor continuamente, a não ser que fosse medicamente necessário, nem estaria presa à cama do hospital. Poderia andar, usar a bola de Pilates, a banheira (se disponível). Poderia estar em trabalho de parto e dar à luz em qualquer posição que fosse mais confortável para mim. Seria evitada uma episiotomia a não ser que fosse medicamente necessária. Quando a bebé nascesse seria posta no meu peito imediatamente e permitido amamentar. Adiaríamos o corte do cordão umbilical e que limpassem e pesassem a bebé para mais tempo pele-a-pele com a maē depois do nascimento. Todas as intervenções que tivessem de ser feitas à bebé seriam feitas com ela no meu colo. Claro que, tudo isto, se a nossa saúde o permitisse.

Era esse o meu plano. Era isso que ambicionava. E racionalmente, estava preparada para alterar o meu plano a qualquer momento se as circunstâncias assim me obrigassem.  Mas emocionalmente… isso é outra conversa! O que é que acabou por acontecer então? É uma longa história. Vou tentar resumir as partes mais importantes. Mas digamos que, para minha grande tristeza, não podia ter sido mais medicalizada do que foi.

Terça à tarde comecei a ter contracções. Eram regulares mas toleráveis. Acabei o meu dia de trabalho (em casa) sem problemas. Quando fui para a cama as contracções estavam a afastar-se e pensei que devia ser mais um falso alarme (apesar das já quase 41 semanas). Depois da meia-noite a intensidade das contracções aumentou e a partir das 4 da manhã aconteciam de 5 em 5 minutos. Às 6 da manhã estávamos no famoso 5-1-1 (contracções que duram um minuto, de 5 em 5 minutos, há 1 hora) e telefonámos para o hospital. Chegámos ao hospital às 8 da manhã onde a nossa doula nos esperava. Quando nos disseram que só estava 1cm dilatada, não queríamos acreditar! Mandaram-nos para casa e deram algumas recomendações para tentar mudar a bebé de posição, pois não estava numa posição muito encaixada e favorável.

Estive em casa em trabalho de parto. Tentei descansar e comer (mas não com muito sucesso). A intensidade das contracções estavam mais fortes mas eram muito irregulares. Deitei-me no sofá, estive debaixo do chuveiro uma boa hora, tentei diferentes posições para ajudar a bebé a encaixar e descer com a ajuda da Nancy (a doula) e do meu marido. Às 4 da tarde, depois de comer uma canjinha feita pela minha querida mãe, estava a ter contracções de 3 em 3 minutos e voltámos para o hospital. Agora, 24 horas depois, já estava cansada. À chegada disseram-me que estava de 5cm e podia ficar no hospital. Até tinham um quarto com banheira e tudo. Então lá estive na banheira mais uma hora. Por essa altura debati-me com a minha primeira decisão: levar ou não levar a epidural. Tinha chegado aos 5cm, mas com 24 horas em cima a minha energia estava a desaparecer. Se calhar, se levasse a epidural talvez conseguisse dormir e descansar para me sentir melhor quando chegasse a nossa menina? Mesmo assim estava preocupada com a possibilidade de puxar a bebé com uma epidural, entre outras coisas. As minhas maravilhosas parteira e enfermeira ajudaram-me a sentir confortável com a minha decisão. Sai da banheira, estava 7cm dilatada e levei a epidural. Depois disso, as coisas deixaram de ser como eu tinha planeado.
A epidural não pegou bem e precisei de levar mais várias vezes. Durante horas não passei dos 7cm. Como as minhas águas ainda não tinham rebentado, decidimos tentar pitocina primeiro. Nada aconteceu. Depois decidimos então tentar rebentar as águas. Horas depois, finalmente chegámos aos 10cm. Por esta altura já eram umas 2 da manhã. Puxei durante 1 hora. Nada. Descansei. Puxei outra hora. Nada. Tentámos várias posições (limitadas devido à epidural). Lembro-me de pensar: “não, esta bebé vai sair agora!!!”. Incrível as forças que se arranjam nestas situações. Mas estava esgotada. Em trabalho de parto há 40 horas, mais de metade sem epidural, o restante tempo com uma epidural que não estava a funcionar bem. Puxar durante 2 horas e SEM progresso nenhum. E foi aí que acabámos no bloco operatório com um diagnóstico de “incapacidade de progredir” (tradução literal – mas o nome do diagnostico em si faz mesmo uma pessoa sentir-se como a própria palavra – um falhado!) e uma cesariana. Não foi uma emergência. Foi a última medida. E para juntar à festa, com todos os medicamentos que me deram – por causa duma epidural mal feita – não me lembro de nada. Lembro-me de pensar “porque é que o médico já está a cortar? O meu marido ainda não está aqui” e o que vejo a seguir é o meu marido a trazer aquele embrulhinho maravilhoso e emocionalmente dizer-me “é linda!”. O quê? O que é que aconteceu? Não queria acreditar que nem a tinha ouvido nascer! Olhei para ela. E naquele momento esqueci-me de tudo! Mal podia acreditar que ela estava finalmente aqui! Apaixonei-me naquele instante. Não conseguia parar de chorar e só queria poder pegar nela!

Tenho de dizer que o hospital fez um trabalho maravilhoso de tentar tornar a cesariana na melhor experiência possível. Tive uma cesariana impecável e sem complicações. A bebé NUNCA foi levada para longe de nós. Assim que chegámos ao recobro ela foi posta no meu peito e amamentou e esteve pele-a-pele comigo enquanto a minha maca foi levada para o quarto da Maternidade. Todos os nossos pedidos para o pós-parto foram respeitados: não deram formula à bebé, ela ficou no meu quarto, etc.

Estive no hospital 5 dias. Foi uma benção. Durante 3 dias as parteiras vieram e falaram connosco sobre o nosso trabalho de parto e tentaram processar connosco todos os nossos sentimentos. Sabiam que as coisas não tinha corrido como planeado e o quão emocional isso pode ser. Chorámos, rimos, desejámos que tivesse sido diferente, aceitámos a realidade do que aconteceu. Para além disso, ficar no hospital ajudou-me a começar o processo de amamentação. Não tenho a certeza se teria tido sucesso em casa sozinha se tivesse vindo para casa ao fim de dois dias (mais sobre isto num post futuro).

Depois de quase um ano, a coisa que ainda me traz lágrimas aos olhos é lembrar-me que não a ouvi nascer. Dói. Há pessoas que não conseguem perceber porquê. Mas acho que é daquelas coisas que só passando por elas é que se percebem. Mas há uma coisa que me faz sentir melhor em relação a isso. Claro, que foi o facto de ter uma bebé saudável. Mas também um vídeo maravilhoso que o meu marido filmou em que se vê aquela menina de olho esperto a olhar directamente para a camera, com apenas um minuto de vida. Ela estava pronta para roubar os nossos corações e enfrentar o mundo. A nossa historia começou nesse dia. Nessa quinta-feira às 8:08 da manhã. E sinto-me melhor por saber que ela nasceu quando e como tinha que nascer, mesmo que isso não tenha sido o meu plano.  

 

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  1. Pingback: 10 Coisas a Saber Sobre uma Cesariana | Two Tiny Feet, One Big Heart

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